Claudiney Rocha é Procurador do Estado de Goiás e presidente da Associação dos Procuradores do Estado de Goiás (Apeg)

Comemoramos em 2022 dez anos da Lei de Cotas. Sancionada em 2012, a lei determinou que 50% das vagas em universidades e institutos federais fossem destinadas a estudantes de escolas públicas, além da previsão de vagas para grupos específicos, como pretos, pardos e indígenas. Mas o que de fato aconteceu nesta década?

Ampliamos o acesso da população preta e pobre ao Ensino superior; colocamos em pauta a perda de oportunidades e as dívidas do país com os descendentes de 388 anos de escravidão; e criamos um movimento que valoriza a identidade negra, criando para os jovens um caminho que identifica sua história, sua ancestralidade e seus desafios como pretos no Brasil.

O Ensino Superior não só aumenta as chances no mercado de trabalho, como também é um reconhecimento à inteligência e à relevância dos pensamentos e da produção do indivíduo. E foram as cotas raciais que permitiram que, de 2013 a 2019, houvesse um aumento de 205% de estudantes pretos, pardos, indígenas e de baixa renda nas universidades.

Para quem estudou antes de 2012, pergunto (triste, por conhecer a resposta): quantos colegas pretos você teve no Ensino Fundamental, no Ensino Médio e, por fim, na universidade? Eu me formei em uma universidade pública, cercado de colegas brancos e de professores igualmente brancos, que contribuíram imensamente para minha formação, mas com os quais nem sempre pude dividir os desafios que me cercavam por causa da cor da minha pele.

As cotas, já em pleno funcionamento, também mudam a realidade no mercado de trabalho, onde começamos a observar uma mudança, que precisará ser ampliada. Somos 54% da população brasileira, mas também somos 64% dos desempregados no Brasil, 47% dos que estão na informalidade e apenas 29,9% dos que ocupam cargos gerenciais. Celebramos esta década cientes, portanto, das mudanças que estão por vir e ávidos para que se amplie esta discussão em outros espaços, como nos concursos públicos.

No mês da Consciência Negra, temos que vislumbrar a possibilidade de pacificação da questão racial a partir da justiça, da oportunidade e do resgate das nossas origens. A escritora norte-americana Maya Angelou escreveu que “o preconceito é um fardo que confunde o passado, ameaça o futuro e torna o presente inacessível”. Acredito que a política de cotas é o esforço de toda a sociedade para tornar o nosso futuro acessível e justo.

Fonte: Jornal O Popular

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